Um Deus des(temido)
Tenho ficado cada dia mais impressionado pela involução mental de certas lideranças religiosas brasileiras. Impressionado pelo retrocesso discursivo que mais se aproximam de discursos de influencers do que de falas de pessoas que foram preparadas para anunciar a boa nova da religião que deve apontar para a comunhão, para a justiça, para o respeito e para a dignidade humana.
O fundamentalismo religioso está tomando o lugar das homilias destinadas a alimentar as almas das pessoas fiéis, que buscam na religião o consolo para as suas angústias, a orientação para as suas dúvidas, a sabedoria para as suas decisões.
O discurso religioso está nos levando de volta para a idade das trevas, para o tempo onde o fundamentalismo bélico gerou inimigos por toda a parte e incutiu na alma das gentes um Deus sedento de sangue, de sacrifício e de mortificação. Isso me leva a conclusão de que o fascismo está mais vivo do que nunca porque o monstro que o nutre terraplanou a estrada que conduz ao inferno.
E por inferno, é bom que se diga, não é um lugar onde no imaginário popular de diabos e chamas por todo lado. Trata-se de um estado de solidão absoluta, do "não-lugar", de escuridão, de alienação (na mais assertiva concepção marxista).
Quando se escuta discursos que legitimam a violência, a acomodação social, o medo do inferno, o punitivismo divino, não posso deixar de me revolver nas entranhas por ser apresentado a um Deus que não acredito. O Deus que acredito se manifesta no testemunho histórico de Jesus de Nazaré.
Um Deus que assume mais a ternura do que força, mais a vida que dogmas. Um Deus que não se preocupa em ter defensores armados até os dentes contra as pessoas e religiões diferentes. Um Deus que está preocupado em aliviar dores, fortalecer a dignidade das pessoas, um Deus que assume a plena humanidade de suas criaturas e que sente as dores que os poderosos infringem aos despossuídos.
Um Deus que está mais identificado com o estilo de um Francisco, de um Júlio ou de uma irmã Lourdes do que qualquer outro modelo de espiritualidade. Um Deus que assume as dores dos escravizados de ontem e de hoje. Um Deus pra quem a vida não é apenas uma extensão que pode ser respeitada por um cronologia definida por semanas. O que define a vida para Deus é o amor, pois sem este, a vida está desprovida de sentido.
Esse Deus abraça o povo que vive na rua porque ele pode ser encontrado nas ruas. Assim como também nos becos e vielas de nossos cortiços (quem sabe nos barracos alagados pelos desastres climáticos), nos corpos sofridos da juventude negra e pobre, nas pessoas trans, lésbicas e gays expulsas das casa de "moralidade familiar" ou até mesmo das igrejas.
Tá na hora de se confrontar certos discursos moralistas, coloniais, elitistas e exibir o projeto de quem enfrentou farisaísmos, desmascarou a mercantilização e abraçou a dor, os corpos e os sonhos das pessoas simples. Quanto aos pretensos donos da religião, Deus cuidará deles e delas. Amém?
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