A brutalidade não pode ser normalizada

A morte violenta do cão Orelha, em Santa Catarina, não interpela apenas nossa sensibilidade moral, mas a própria ideia de comunidade. Desde os primórdios do pensamento ético, a vida foi compreendida como um valor que antecede qualquer convenção social: ela não se justifica por sua utilidade, por sua racionalidade ou por sua força, mas pelo simples fato de existir. Quando uma vida é destruída de forma gratuita ou violenta como foi o caso, algo se rompe no tecido simbólico que sustenta o pertencimento à própria humanidade.
Este lamentável e horrendo episódio fala muito sobre como nossa sociedade se estrutura em termos de valores. E ele traz consigo um encadeamento de responsabilidades que precisa ser expressamente condenado. Os adolescentes cometeram um crime e seus pais o continuaram. Não foi apenas um "erro" adolescente. Foi pura crueldade. Não há evidencia nenhuma de que os adolescentes foram atacados pelo cão. Há evidencias em contrário. Um cão comunitário, querido pelas pessoas, cuidado pelas pessoas, um ser em interação com uma comunidade que o respeitava.
A perversão com a qual esses sub-humanos seres mataram o cachorro, sem condições de se defender, nos revela uma fotografia que envergonha a humanidade. Mas o horripilante ia ficar ainda mais cruel a partir da tentativa de evadir-se da responsabilidade por parte dos "riquinhos" genitores que não somente tentaram ocultar os meliantes psicopatas, como tentaram intimidar testemunhas, confiados talvez na sua projeção social.
Uma importante reflexão cabe aqui. A maneira como tratamos os animais revela, silenciosamente, os limites da nossa ética e de nossa espiritualidade. Os animais domésticos - assim chamados porque convivem pacificamente com os humanos - habitam uma zona de radical vulnerabilidade: dependem inteiramente da responsabilidade humana e não dispõem de linguagem política para reivindicar proteção. Graças a Deus que existem os defensores e defensoras dos animais, sejam eles domesticados ou selvagens.
A pauta do cuidado e do respeito aos animais é atestado da evolução da civilização humana. Tenho ouvido com preocupação lideranças sociais - inclusive religiosas - defenderem um antropocentrismo descabido. Criando falsas simetrias entre humanos e não-humanos. Isso revela apenas que falta conhecimento teológico que entende que todo ser que respira louva ao Criador.
Viver em comunidade exige mais do que leis e contratos; exige o reconhecimento mútuo da fragilidade como condição comum de todos os seres. A defesa de qualquer vida, inclusive a não humana, é um exercício de contenção da barbárie e de afirmação do cuidado como princípio estruturante do mundo compartilhado. Mais que isso até: não respeitar os animais é um sintoma de psicopatologia.
Uma coisa é ter receio de animais. Isso pode fazer parte de experiencias que precisam ser trabalhadas com técnicas apropriadas. Outra coisa é o matar. Isso precisa ser enfrentado com rigor.
Defender a vida, toda vida, é afirmar que a brutalidade não pode ser normalizada e que o cuidado deve ser um valor coletivo. Ao reagirmos com indignação e reflexão, reafirmamos que a convivência só é possível quando fundada no respeito, na responsabilidade e na consciência de que cada ato de violência — mesmo contra quem não tem voz — enfraquece a todos nós. Nos torna ainda menores!!
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